A cada acorde que passa

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“Devo acordar…” em semissono penso, questão de sobrevivência do pouco de Ser consciente que surge tão cedo de manhã, numa hora que só mesmo a mais doente das sociedades pode fazer um animal tão preguiçoso como o homem acordar.

Os olhos tontos fechando as pálpebras que mal se tocam, e na mente soniferada, poucos segundos passam. Mas no relógio, meia hora queimou-se em vão, como se a Terra rodopiasse ao seu bel prazer, e não segundo alguma lei da física. É nesse tipo de meia hora que dura segundos de olhos fechados que se decide a chegada adiantada ou a atrasada, nesse tipo de total dessincronização entre o relógio da vida e o relógio do mundo.

É nas pequenas coisas que se percebe que não fosse a vinda da noite todos os dias do mês, seria impossível saber, sem um relógio e sem um sol, quantas horas passaram. E que essas divagações totalmente plausíveis podem ter durado segundos para ler, minutos ou horas para escrever, qual autor não pensou nisso, e quantos leitores não ignoraram prazerosamente este raciocínio? Ainda bem que ignoram. Com toda essa dor de cabeça, ler não valeria a pena, é mais fácil ater-se à história sem se preocupar com os detalhes da fruição do tempo na vida de quem forjou as palavras lidas.

Acordo finalmente, talvez tendo pensado em tudo isso aqui escrito, ou talvez não tendo pensado em nada, mas meia hora passou, meia hora falta para o momento de sair de casa e pegar o transporte público de cada dia, e agora é preciso tomar banho.

Banho que pode demorar dez minutos contados, gastando uma variável de litros d’água dependendo da pressão definida pela rotação maior ou menor das torneiras. Maçante pensamento, necessário em dias de crise aquífera, para fins de economia do recurso hídrico. A questão é, não importa o quão rápido tudo isso seja feito, mais o cafezinho indispensável que incentiva desde o momento em que se abre os olhos, como motivação, até o momento de fechar o portão, como energia… No fim, demora-se sempre mais tempo do que se tem.

O Trajeto é uma das coisas mais contabilizáveis em tempo de todo o processo. Claro que tem o fator dúbio dos passos, da velocidade das pernas, tudo isso varia. Mas entre o trem de metrô que se encontra parado na plataforma, e o próximo que virá, reside a diferença entre chegar na hora e se atrasar. Mais fácil se acostumar com o atraso de cada dia, do que se preocupar com todas essas variáveis, em uma hora tão soniferada do dia, regida por medicações capazes de convencer, cada vez mais, sobre o valor do sono, quiçá tão valioso quanto a água.

 

Jornalista com interesse nas áreas de filosofia, política, economia e ativismo social. Bastante convicto que não existe imparcialidade em nenhum meio de comunicação, declara sua posição em prol da ética e dos direitos humanos. Defende que o modelo econômico cartalista explica o real funcionamento da economia mundial, mesmo quando ortodoxos visam impor uma visão ilusória para defender, por trás dos panos, que a renda se dirija aos detentores das dívidas nacionais e do grande capital. Defende uma política socialmente liberal, que proteja os indivíduos das forças de mercado, totalmente oposto ao conservadorismo moral, político e econômico. A existência do comércio livre é desejável para os consumos variáveis do dia a dia, porém os bens de subsistência devem ser regulados firme e dignamente pela democracia, como bens da República. Saúde pública e Educação gratuita universal de qualidade, mídia livre e distribuição de renda até um nível de vida agradável a todos, isso deveria ser o básico do básico para guiar qualquer visão econômica. Infelizmente não é.

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