esqueça o título

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A primeira questão que me ocorreu, ao terminar o livro de contos Sexo e amizade, de André Sant’Anna (Companhia das Letras, 2007), foi esta: como um livro de qualidade tão rara pode ter um título tão ruim?

Verdade seja dita, títulos não são o forte na obra desse autor: Amor (1998), Sexo (1999), Amor e outras histórias (2011).

Era novembro de 2019 quando encontrei Sexo e Amizade na estante da Martins Fontes da Rua Dr. Vila Nova. Eu já tinha ideia de quem era o autor, guardava boas impressões das poucas espiadas que dei em sua prosa. Depois de me horrorizar com o título da capa, resolvi correr os olhos pelo sumário para conferir os títulos dos contos.

Não me pareceram ruins. Abri o livro a esmo – é uma mania de muitos leitores –, e cheguei a estas palavras:

Aquarius

Havia uma mulher gorda, vermelha, descascada, cheia de bolhas nas costas, cobrindo as pernas gordas com uma toalha toda suja de areia. Havia o marido da mulher gorda, que parecia olhar o mar, mas estava mesmo era olhando para o vazio, com uma barriguinha, a barba por fazer, olheiras bem fundas e um órgão sexual enrugado e minúsculo.

“Seco, enxuto, sarcástico, com belo encadeamento sonoro”, pensei, já saltando – aleatoriamente de novo – para outra página:

Rush

Mulher no trânsito é um pobrema. Bom era no temopo da ditadura. Eles não davam carteira pra qualquer um, não. tinha que mostrar que sabia dirigir mesmo. Se o cara não arrumava o banco direito quando ia sentar no carro, pelo jeito do cara, o instrutor já percebia se o cara era bom de dirigir mesmo.

“Texto vivo. Cruel. Excelente apropriação da oralidade”, concluí.

E assim, saltando de início a início, descobri que queria aquele livro. Comprei-o e fiz a primeira leitura sentado num ônibus muito cheio e parado num congestionamento terrível – uma ambientação, aliás, perfeita para a mundanidade crítica de Sant’Anna, com sua penetração sarcástica sobre o inferno da vida urbana.

O livro me fisgou e acho que dificilmente não fisgará um leitor que busca literatura genuinamente contemporânea, intensa, certeira na crítica, ritmicamente impecável, uma literatura que – como a boa literatura – sabe dar saltos sobre os poços da mesmice vocabular, sintática e imagética, oferecendo uma singular lição de leitura da realidade.

André Sant’Anna nasceu em Belo Horizonte em 1964, morou no Rio de Janeiro grande parte de sua vida e hoje vive em São Paulo, cidade que parece ser o ponto de partida de seus argutos exames psicossociais, cidade que ele louva e ironiza de modo magistral em seu Pro Beleléu, uma grande homenagem à Pauliceia:

Detesto São Paulo.

Antes eu gostava quando eu era do Rio e eu vinha pra São Paulo ver show da Vanguarda Paulista e eu saía de noite e eu era muito jovem e eu estava aprendendo a tocar contrabaixo e eu era mineiro e eu tenho uns tios que são mineiros e moram em São Paulo há muito tempo e eles são músicos e eu queria ser músico que nem eles, os meus tios, e eu saía de noite com o meu tio que tinha uns amigos que eram da Vanguarda Paulista e tinha o Gigante que era amigo do meu tio e tocava com o Itamar Assumpção e eu fui no ensaio do Itamar Assumpção no dia que a Elis Regina morreu e de noite fazia um frio que eu achava gostoso e eu botava uns casacos que eram muito bonitos e elegantes que só dava pra eu usar quando eu vinha pra São Paulo (…)

E foi assim, entre um texto e outro, que cheguei (dias depois, em casa, já livre do engarrafamento) a um texto ainda mais impressionante: a última narrativa da antologia, mais comprida que as outras, intitulada (infelizmente) Sexo.

Exame cru da realidade urbana brasileira, essa narrativa, ao abordar o campo do erotismo, revela ao leitor os signos que estão em jogo na sociedade de consumo. Apontando o chão ideológico das paixões, o autor desnaturaliza e desmistifica os desejos, inscrevendo-os num código social, ou seja, num campo imaginário em que o tempo e o espaço atuam como fatores decisivos.

Como disse no começo, não sei se encontrei a resposta para o título ruim. Mas fiquei pensando numa possível perspicácia do autor, que poderia ter escolhido um título de grande atração para vários segmentos do (pequeno) leitorado brasileiro, incluindo aquele que, guiado pelo senso comum e a cultura de massa, tende a buscar, na ficção literária, no cinema e na TV, uma visão do sexo e da amizade como categorias redentadoras, de papel reparador frente aos desconfortos de um cotidiano assolado pelo medo, a desconfiança e a mais bruta competitividade.

O autor conseguiu a empatia do público? Seria interessante saber, por exemplo, qual foi a reação de alguém que entusiasmou com o título mas antes de decidir levar o livro resolveu ler a orelha, a qual já começa declarando que “‘Sexo e amizade’ é o título irônico de um livro desconcertante.”

Eu diria também que é um forte contraponto àquela visão simploriamente positiva dos vínculos humanos mais íntimos, provando que é muitas vezes exatamente no interior deles que se manifestam os mais cruéis atos de barbárie.

Registre mais essa dica do Prefácio.

Aguardo comentários.

 

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Autor do livro "Entulhos" (Editora Patuá) e do blog "não basta". Nasceu em São Paulo e é principalmente sobre essa cidade que gosta de escrever. Professor e pesquisador na área de Literatura, trabalhou também como autor e colaborador para as editoras Ática, SM e FTD. Atualmente, estuda Graciliano e João Antônio em seu doutorado, atua como editor da Revista Crioula da USP e escreve seu segundo livro de contos, cujo título provisório é A menina sem imaginação & outras histórias.

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